terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os dragões não conhecem o paraíso. Trecho.

Nos dias que antecedia sua chegada, acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber por que, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que o espaço ficasse mais bonito. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguis comer e nem dormir à espera dele._ Agora, agora vou ser feliz! Pensava o tempo todo numa certeza histérica. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dia após dia, enquanto flores e frutos apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Escolha ser feliz.

A busca incessante pelo amor.

Algumas pessoas idealizam o amor de suas vidas assim: loiro, olhos azuis, corpo escultural de propaganda de academia. Romântico, que traga nos olhos azuis o amor. Que ao cruzar o olhar azul com o seu de qualquer cor o Cupido imediatamente entra em ação e o flechará. Bares, guetos, redutos, saunas, cinemas, praças, ruas... As pessoas só o procuram nos lugares onde ele não costuma freqüentar e ficam rodando na roda de “A dama da noite” desnorteadas. Mas porque será que alguns humanos preferem brigar e serem promíscuos a amar os outros que sejam dentro das normas da normalidade, normais? Porque eles só enxergam o amor no carinha da propaganda? Aí na fuga de sua inevitável solidão saem na captura do olhar mais belo. Do troféu que ostentarão para os outros seres como eles olharem e cobiçarem, invejarem, desejarem ter... Eles conhecem então, um cara - não o da propaganda - sai algumas vezes se falam pelo telefone e simulam até certa preocupação com o outro. O carinha é bacana, suas idéias correspondem, rola até certa afinidade. Mas quando percebem que o milagre vai além do rosto bonito que muitas vezes conta com o auxílio do Photoshop, tudo muda. No menor defeito do carinha, sei lá... Você descobre que o cara fuma é o motivo para quebrar o encanto e o mundo acabar porque ele não é o amor de sua vida, já que o amor de sua vida não fuma. Por que será que as pessoas não conseguem enxergar o amor além do corpo e por isso se perdem na promiscuidade sustentando uma prostituição disfarçada? Essa resposta eles encontram todas as noites quando nas paredes frias do seu quarto você se depara sozinho. Aí você começa a administrar todas as idéias e pensamentos do dia na tentativa de justificar o porquê não é amor da vida de alguém ou encontra o amor de sua vida. Às vezes você fica com um carinha, até bonitinho, mas que não está nem aí pra você para alimentar uma ilusão ou para não ficar tão solitário. Então chega o tão esperado fim de semana. Sábado é dia de encontrar o amor na balada, você coloca a melhor roupa para causar uma boa impressão, afinal, você vai encontrar o amor! Chega então na tal balada, você ta arrasando essa roupa, o amor vai te identificar de cara. Troca de olhares, flertes, joga de sedução, fazem “carão” e vivem na ilusão de que são desejados e até são, mas na verdade eles sabem que vão reinar no “dark room” sabe Deus com quem. Bem feito, bonito! Vai ficar fazendo doce e selecionando rostinhos enquanto a noite passa e com ela quem sabe a chance de um possível amor e no final fica com alguém sem rosto e sem sentimento e ainda por cima correndo riscos só para não ir para casa na seca. No dia seguinte você fica vasculhando a memória procurando com que carinha da balada você ficou no tal quarto escuro. Será o loirinho de cabelinho moicano? Ou o moreninho de lábios carnudos e camiseta preta? Pra falar a verdade, não foi nenhum dos dois, foi aquele tiozinho de óculos, bigode, baixinho e que falta um dente. A cada dia que passa nos convencemos que muito de nós em suas atitudes só contribuem para os falatórios que a maioria fala. Relacionamentos sérios entre iguais não existe amor, só sexo. Eles perdem muito tempo procurando a perfeição e esquecem de viver o amor.

domingo, 3 de outubro de 2010

O dono das palavras.


Construção
 Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego



Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público



Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado



Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir,

Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,

Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,

Deus lhe pague

Kiko Sousa por Neza Nóbrega.